Uma viagem marcada por primeiras vezes. O primeiro avião, o primeiro contato com um ginásio oficial de ginástica artística, a primeira grande competição e a oportunidade de escrever uma página inédita na história do esporte goiano. Aos 16 anos, Heitor Matheus Izac Rocha desembarcou em Foz do Iguaçu (PR) para disputar os Jogos da Juventude CAIXA 2026 carregando muito mais do que o uniforme e os equipamentos de um ginasta. Na bagagem, trouxe sonhos que começaram diante da televisão, uma paixão que desafiou as dificuldades e a responsabilidade de ser o primeiro representante de Goiás na ginástica artística da competição.
Ao seu lado está alguém que conhece de perto o caminho até os maiores palcos do esporte mundial. Ex-integrante da seleção brasileira, finalista olímpico e medalhista de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima 2019, Francisco Barretto Júnior, o Chico Barretto, agora experimenta uma emoção diferente daquela que sentia quando defendia o Brasil. Em vez de executar as próprias séries, será ele quem acompanhará cada movimento de Heitor, em uma estreia que promete marcar a trajetória de ambos.
E o destino reservou um detalhe especial para essa história. No sábado (31), quando Heitor entrar em ação na classificatória masculina dos Jogos da Juventude CAIXA, Chico completará 37 anos de vida. O presente que o treinador espera não é uma medalha, uma classificação ou um lugar no pódio. É algo que, para quem conhece os desafios da ginástica, pode valer tanto quanto uma conquista. “O presente é que ele acerte todos os aparelhos, sem queda. Já vai ser uma vitória absurda pra nós e um presentão pra mim”, revelou Chico, entre sorrisos, ao falar sobre o aniversário que passará acompanhando o pupilo.
Da televisão à primeira aula
A relação de Heitor com a ginástica artística começou diante da televisão. Durante os Jogos Olímpicos do Rio 2016, ainda criança, acompanhou as apresentações de atletas brasileiros como Chico Barretto e Arthur Zanetti. Anos depois, Paris 2024 reacendeu seu interesse pela modalidade e o levou a procurar uma escola em Goiânia.
A busca não foi simples. Heitor não encontrou academias que oferecessem treinamento masculino na cidade. No ano seguinte, voltou a pesquisar e descobriu que uma academia havia aberto as portas para a modalidade. Era justamente a OLY Centro de Treinamento, escola comandada por Chico Barretto.
Quando chegou para a aula experimental, Heitor ainda quis confirmar se havia treinamento para meninos. Chico lembra que se surpreendeu com a idade do interessado. Aos 15 anos, ele começaria a praticar um esporte no qual muitos atletas iniciam a formação aos quatro ou cinco anos.

Começar mais tarde do que a maioria dos outros ginastas representava um desafio, deixado claro bem de início por Chico Barretto. Heitor precisaria desenvolver fundamentos, força e técnica em menos tempo do que boa parte dos adversários. Ainda assim, manteve a rotina de treinamentos, que hoje chega a duas horas por dia, todos os dias da semana.
“Eu sempre deixo bem claro pra ele as dificuldades que vai encontrar na ginástica: a resiliência, a garra, o compromisso de não faltar nos treinos. E ele tá agarrando isso. Então é mérito dele estar lá todos os dias, acreditando que ele pode fazer”, disse Chico.
A convocação para os Jogos da Juventude CAIXA foi uma surpresa. O treinador chamou Heitor para uma conversa, e o ginasta pensou que receberia uma bronca. “Eu não sabia nem explicar o que eu estava sentindo. Mas fiquei muito feliz, ainda mais chegando aqui. É outro mundo do esporte com o qual eu nunca tinha tido contato”, afirmou.
Os Jogos da Juventude CAIXA Foz do Iguaçu 2026 são realizados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB), com apoio da Prefeitura de Foz do Iguaçu e do Governo do Paraná; patrocínio de Vale, Neoenergia e Wizard, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte; e têm a Urbia Cataratas como Parceiro Local. O COB conta com a CAIXA e Loterias CAIXA como Patrocinadores Olímpicos Nacionais Master, e com Adidas, Vale, Tigre, Vivo, Medley, Neoenergia, Wizard, Dasa, Estácio, Neodent, Mormaii e Max Recovery como Patrocinadores Olímpicos Nacionais.
A primeira viagem e o ginásio de competição
A ida a Foz do Iguaçu trouxe outras novidades. Heitor nunca havia viajado de avião e ficou impressionado ao ver uma aeronave de perto. Recebeu a recomendação de mascar chiclete durante o voo para aliviar o desconforto causado pela mudança de pressão. No primeiro trecho, seguiu o conselho. No segundo, dispensou o chiclete e sentiu a diferença. “Pra decolar, eu não senti nada de pressão. Agora, no segundo avião, que eu não masquei chiclete nem nada, eu fiquei: ‘Meu Deus, minha cabeça vai explodir!’”, relatou.
O ginásio dos Jogos também chamou a atenção do estreante. Embora treine em uma estrutura que conta com os seis aparelhos da ginástica artística masculina, Heitor nunca havia competido em um espaço daquele porte. “Vendo esse solo desse tamanho, é uma coisa de outro mundo”, exclamou.
No sábado (31), ele participará da classificatória masculina, disputando o individual geral, composto pelos seis aparelhos: solo, cavalo com alças, argolas, salto, barras paralelas e barra fixa. Entre seus preferidos estão justamente o cavalo com alças e as argolas. “Eu gosto muito do cavalo, mesmo sendo um aparelho difícil. Eu acho que se você tentar conhecer ele mesmo, usar a técnica, você evolui muito ali”, explicou.
Para preparar o aluno, Chico realizou simulações de competição durante os treinamentos. O objetivo foi aproximá-lo das condições que encontrará em Foz do Iguaçu, incluindo a avaliação das séries. Ainda assim, o treinador sabe que a experiência diante de adversários e público só será adquirida na hora de competir.
O ídolo agora na beira do ginásio
A relação entre os dois vai além dos treinos. Chico compartilha com Heitor experiências acumuladas em competições internacionais, desde detalhes técnicos até orientações sobre como lidar com a pressão. “É uma responsabilidade e uma honra também. Ele passa as histórias olímpicas dele direto pra gente, dá dicas, a técnica dele”, contou o jovem ginasta.
Para o treinador, a experiência como atleta permite transmitir conhecimentos que nem sempre aparecem nas instruções técnicas. São detalhes sobre o tempo de preparação, a respiração e a rotina antes de entrar em ação.

Mas a mudança de posição também trouxe novidades para Chico. Depois de anos acostumado a competir, agora precisa lidar com a expectativa de acompanhar o desempenho de outra pessoa.
“Eu ainda senti um frio na barriga de me arrumar pra ir pra uma competição assim. Só que agora de uma forma totalmente diferente. Antes a gente se preocupava só com a gente, com as séries que eu tinha que fazer. Hoje eu me preocupo com ele e com o que vai acontecer na competição ao todo”, explicou.
A estreia de Heitor também representa uma oportunidade para a ginástica artística masculina em Goiás. Chico acredita que a participação pode despertar o interesse de outras crianças e adolescentes, mas ressalta que o desenvolvimento da modalidade depende de mais apoio e estrutura para os treinamentos.
“Tem muita criança ali que quer, que tem vontade. É um estado rico, que tem crianças talentosas”, afirmou.
Heitor sabe que enfrentará adversários com muito mais tempo de experiência. Ainda assim, não pretende transformar a estreia em uma cobrança por resultados.
“Eu acho que é uma honra estar aqui. Mas vou tentar fazer minha ginástica, que eu sei que estou competindo com meninos muito talentosos, que treinam desde os quatro, cinco anos. Eu comecei velho, mas vou tentar fazer minha ginástica e representar da melhor forma”, disse.
Chico também não espera medalhas ou classificações. Para ele, o mais importante é que o aluno consiga executar o que treinou e aproveite a experiência. “É injusto eu pedir qualquer tipo de resultado pra ele. Eu quero que ele se divirta muito e curta, que realmente sinta o prazer de estar aqui, porque foi assim que eu comecei”, afirmou.
O treinador lembra que sua própria trajetória começou em uma competição simples, no interior de São Paulo, com exercícios básicos e muito nervosismo. A primeira experiência não trouxe resultados expressivos, mas despertou uma paixão que o acompanhou até os Jogos Olímpicos.
“Na minha primeira competição não existiu resultado, mas existiu uma paixão por aquilo. E é isso que a gente precisa na modalidade de ginástica artística masculina: gente com paixão pra que fique e faça crescer a modalidade”, disse.
Antes de voltar as atenções para a competição, Heitor também conheceu as Cataratas do Iguaçu e participou das atividades no Centro de Convivência dos Jogos. Para outros jovens de Goiás que ainda não encontraram uma oportunidade no esporte, deixou um conselho: “Pratiquem esportes! Não só ginástica, mas pratiquem esportes, seja para saúde ou para sair da rotina.” Para quem deseja seguir na ginástica, a mensagem é direta: “É muito difícil, mas com muita consistência e vontade a gente consegue, sim, qualquer coisa.”